quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sobre ateismo

http://www.youtube.com/watch?v=y4mWiqkGy-Y

Tradução do video:

"Eu vivo em uma sociedade onde as crenças de todos são respeitadas, desde que elas acreditem em Deus. Mesmo assim existem boas razões para ser um ateu. Pessoalmente, eu as sigo todo o tempo. De fato, eu acho que elas me servem muito bem.

Pessoas frequentemente me perguntam sobre ser um ateu, e certas questões surgem todo o tempo.

Por exemplo, "Como você pode separar bem do mal sem religião para lhe guiar?"

Bem, este é o ponto não? Religião me guia. A maioria das coisas que eu vejo as religiões fazerem, eu acho que são más. E eu acho que isto é um ponto de referência muito útil: se religião está envolvida, eu sei que o mal não estará muito longe.

Uma outra questão é "não é o próprio ateísmo apenas outra religião?"

Bem, eu suponho que ateísmo é uma religião do mesmo modo que o criacionismo é uma ciência ou, Islam é uma religião de paz. Em outras palavras, quando a linguagem já não significa mais nada.

Como o ateísmo pode ser uma religião? quem nós adoramos? e quem irá nos matar se não adorarmos? O ateísmo não exige obediência absoluta e inquestionável, ou faz ameaças sobre castigo eterno, nem ofensas infantis sobre ninharias. Ele nem protege agressores sexuais da Justiça, nem trata mulheres como gado.

De um modo, é uma pena que o ateísmo não seja religião porque nós seríamos capazes de ganhar alguns descontos no imposto de renda, mas não, o ateísmo não garante qualquer privilégio especial.

Não existem escolas ensinando ateísmo para crianças como um sistema de crença, pagas pelo dinheiro público, nem o ateísmo requere que se pague o dízimo sobre os salários dos ateus para manter alguns poucos vigaristas cínicos no luxo.

Como você vê, o ateísmo nem começa qualificar-se como uma religião merecedora do nome.

Não, para mim, ateísmo é apenas outra palavra para realidade. Ele simplesmente significa não ver nenhuma necessidade de pedir desculpas por ser humano, e ser muito feliz em viver a vida que se tem, e não desejá-la vinda do que um truque com três cartas celestiais me diz "o Paraíso está logo ali esperando por você, e tudo o que você tem que fazer é morrer".

Este é um bom preço a se pagar, não é? Pela admissão em um lugar que é provavelmente cheio de clérigos e de cristãos renascidos os quais eu considero, literalmente, um destino pior que a morte.

Mas seguramente as pessoas precisam de religião para responder certas perguntas.

Sim, perguntas como "Qual a melhor forma de abafarmos o espírito humano?", " quanto podemos espremer de um pobre e crédulo?" e " em quantos palácios podemos morar de uma vez sem ruborizarmos?"


Estas perguntas, religião responde muito bem, de fato. Mas infelizmente há outras perguntas para as quais não tem respostas, assim ela maqueia. E isto é onde ateísmo entra. Ateísmo diz, "Ei, você apenas maquiou.

"E religião diz, " Não, isto é o que nós chamamos Teologia ".

O que é a diferença entre doutor de medicamento e um doutor de teologia? Um prescreve drogas, e o outro deve estar drogado. Um teólogo é alguém que é um perito no desconhecível, e tem todas as qualificações para provar isto. Sim, um real especialista.

E isto é porque eu penso que a pergunta que nós deveríamos estar fazendo não é se ateísmo é uma religião, mas por que teologia é considerada como um ramo da filosofia, e não como uma arte criativa?

Porque ela é muito criativa. Você pode vestir seu deus a rigor com qualquer combinação das roupas novas do rei que você preferir.

E deve ser de grande diversão para todos interessados, mas pessoalmente eu não vejo qualquer razão a mais para ensinar isto em universidades das quais há em ensinar astrologia."

OK, nós pegamos a idéia, você não acredita em Deus. Mas pelo menos organizações religiosas fazem um trabalho muito bom, especialmente no Terceiro Mundo. Seguramente você não pode rebater isso.

"Então o que você está me contando? Se eles não fossem religiosos, eles não estariam fazendo este trabalho? Realmente não está vindo dos corações deles? Eles estão fazendo isto apenas porque eles seguem ordens?

É que o que você está dizendo? Eu suponho então que se eles fossem ateus pagãos eles não teriam tempo para fazer isto, porque eles estariam muito ocupados debochando e favorecendo todo desejo mau que as imaginações excitadas deles poderiam inventar, porque isso é o que nós ateus fazemos, é claro, não é?

Nossas almas são corrompidas e mancharam com pecado, porque, bem é apenas um grande estilo de vida, francamente. Na verdade, quando eu tiver terminado este vídeo, eu pretendo gastar o resto do tarde pecando, porque eu sei que eu não serei castigado por isto.

Na realidade, eu estou ficando tão excitado com isto, que eu penso que em parar agora mesmo.Assim paz para todo o mundo, especialmente para todos os hereges, apóstatas e infiéis. "

By Pat Condell

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Decálogo de Bertrand Russel

1. Não tenha certeza absoluta de nada.

2. Não considere que vale a pena esconder evidências, já que, as evidências inevitavelmente virão à luz.

3. Nunca tente desencorajar o pensamento, pois com certeza terá sucesso.

4. Quando encontrar oposição, mesmo que seja do seu marido ou das suas crianças, esforce-se para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.

6. Não use o poder para suprimir as opiniões que considere perniciosas, estas é que irão suprimir-lo.

7. Não tenha medo de ter opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram em tempos consideradas excêntricas.

8. Encontre mais prazer no desacordo inteligente do que na concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deveria, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.

9. Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentar escondê-la.

10. Não tenha inveja daqueles que vivem num paraíso de tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso."

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Elite cultural

por Pedro Vanzella em 04.Mar, 2009

Várias vezes eu usei como argumento e justificativa para a minha arrogância o fato de eu fazer parte da elite cultural brasileira, mas nunca parei para definí-la.

Primeiro é importante dizer de onde isso veio. Hoje, pela milhonésima vez, eu ouvi que devo procurar um psicólogo, que eu tendo a diminuir as outras pessoas em relação a mim mesmo, que este é um comportamento nocivo, etc, etc, etc. A validade deste argumento não vem ao caso, o que importa é o porque de eu fazê-lo.

Superioridade total à parte, alguns de nós somos claramente superiores aos outros em um aspecto pelo menos. A elite cultural de qualquer lugar é justamente o (seleto) grupo de pessoas que se destacam por fazer a vanguarda, criar as novas tendências culturais e de certo modo ditar para onde a cultura popular deve ir.

Este não é um status que se ganhe da noite para o dia, nem se nasce com ele. Há somente um fator para pertencer a esta elite que deve vir de berço: a inteligência.

Vir de família rica é totalmente opcional, ao contrário da crendice popular. Ajuda, com certeza, mas não garante nada. Algumas das pessoas mais ignorantes e alienadas que eu conheço são justamente pessoas de poder aquisitivo muito superior ao meu, e encontro meus iguais em pessoas que vem de famílias não-tão-bem-de-vida.

A crendice popular, por sinal, é algo que não encontra seu nicho entre a elite cultural. Não que não tenhamos entre nós crentes de diferentes convicções. Somos ateus convictos e pagãos, fãs de Star Wars e de Senhor dos Anéis. O que não existe entre nós são preconceitos infundados, crenças pela crença, aceitação de uma fé por compromisso social.

Mas quem somos nós, então? O que torna alguém parte da Elite?

A resposta é simples: nós consumimos cultura. E cultura inteligente.

É importante delimitar a diferença da cultura de um povo e da cultura consumível. A cultura de um povo é a música folclórica, sua língua, sua identidade. Para a maioria de nós, essa cultura, o Samba, o Axé, o Saravá, se torna algo banal e desinteressante. Tão explorados de modos tão gananciosos, da exploração pela simples exploração, que não vale a pena nos preocuparmos com ele.

A cultura consumível nem sempre é local, mas também não precisa ser estrangeira. Embora o nosso momento cultural esteja em uma downward spiral, já tivemos grandes produtores de cultura: Renato Russo, Érico Veríssimo. Ainda temos alguns, como Moacyr Scliar, Seu Jorge (que merece um texto só para ele e sua capacidade de pegar um gênero banalizado e dar uma roupagem nova, transformando em Cultura Legítima).

A cultura que nos interessa é a música, os livros, os filmes. Literatura, no sentido mais amplo da palavra. Mas não qualquer uma, a Cultura Legítima. E o que seria ela? - Algo que adiciona à vida do consumidor; que muda sua vida.

Elite Cultural somos aqueles que definimos o rumo da cultura popular ao tentar sem medo e sem preconceito coisas novas. Fomos nós que trouxemos Crepúsculo para a mainstream, e cabe a nós retirá-lo de lá, agora que foi provado que é, sem eufemismos, uma completa porcaria. Fomos nós que colocamos os quadrinhos nas mãos de milhões de adolescentes, que colocamos o Homem-Aranha da adolescência de nossos pais nas telas de cinema, que demos o Oscar a um ator que interpretou um vilão maníaco-anarquista de uma História em Quadrinhos.

Já tivemos muitos nomes, já tivemos muitas faces. Hoje somos conhecidos como nerds.

Sim, é possível ser feliz sozinho!


Excelente artigo que achei hoje pela internet e que tem tudo a ver com o momento que estou passando....


Não defendo a solidão total como a melhor maneira de se viver, pois o ser humano é gregário e poucas coisas na vida são tão agradáveis e construtivas quanto o convívio saudável com outras pessoas. No entanto, esse convívio deve ser espontâneo e prazeroso, senão não tem razão de ser. Lembram-se da velha máxima de que “antes só do que mal-acompanhado”? Como todo velho provérbio, ele é sábio e direto. Muitas vezes, estar sozinho pode ser mesmo a melhor opção. A solidão nos proporciona o encontro com nós mesmos, nos induz à reflexão e ajuda a iluminar o nosso caminho rumo ao autoconhecimento. O problema é que, cada vez mais, percebo que não vivemos numa sociedade de livres pensadores e sim numa sociedade de autômatos sem personalidade, que acatam com espantosa subserviência todos os modismos e exigências do sistema. As pessoas, simplesmente, não se permitem pensar e chegar a conclusões tão óbvias, preferindo abraçar cegamente e de maneira desesperada o modus vivendi estabelecido pela mídia e abrir mão da sua individualidade em nome de uma falsa sensação de aceitação social.
Dessa maneira, o que passa a valer é o que a sociedade considera correto e aceitável e não o que cada um deseja sinceramente para si. E a nossa sociedade condena veementemente a solidão, como se fosse uma aberração. De maneira silenciosa, porém ostensiva, ela nos obriga a estar sempre acompanhados como condição sine qua non para podermos interagir plenamente com o meio. Uma pessoa sozinha é vista como alguém doente, sem atrativos, um rejeitado social, um infeliz que não teve competência para encontrar um(a) parceiro(a) e agora amarga a solidão por pura falta de opção.
A sociedade latina em geral e a brasileira em particular ainda não aprendeu a aceitar a solidão como uma opção. Nos finais das telenovelas, por exemplo, a maioria dos personagens “bons” acaba, de alguma maneira, encontrando um par; os “maus” são punidos com a solidão e o abandono. É o supremo castigo na ficção, só comparável à prisão ou à morte.Com as mulheres essa cobrança é ainda mais forte. Lembro-me de uma entrevista muito interessante que Lucía Etxebarría – escritora espanhola de que gosto muito, autora de Amor, curiosidad, prozac y dudas – concedeu a Antonio Skármeta, a propósito de uma matéria publicada na prestigiada revista literária Qué Leer que anunciava ter sido 1999 “o ano das mulheres”, referindo-se a uma espécie de boom na publicação de livros escritos por mulheres em língua espanhola. Etxebarría minimizava o fato: “Todos dizem: ah, você é uma escritora famosa ou dirige uma empresa ou está à frente de um conselho administrativo... Mas quando vai se casar?” – declarou ela, com a sua costumeira ironia e mordacidade, deixando claro que, aos olhos da sociedade, por mais bem-sucedida profissionalmente que seja uma mulher, ela só será considerada plenamente realizada se encontrar um marido. Nada muito diferente do que acontecia há algumas décadas.
É claro que um casamento ou mesmo um namoro prolongado podem ser extremamente gratificantes e muitas uniões duradouras comprovam isso. Mas o ato de se casar ou de ter um parceiro ao lado deve partir, sobretudo, de um anseio íntimo e genuíno e jamais de uma cobrança social coletiva. Quantas mulheres preferem cancelar sua presença em eventos sociais a ter de comparecer desacompanhadas, com medo de serem mal-vistas? Quantos homens se obrigam a se casar apenas para mostrar masculinidade à sociedade, para provar que não é um solteiro “maricas” ou adquirir mais respeitabilidade no meio que freqüentam? Quantas pessoas se empenham na busca desesperada pelo relacionamento a qualquer custo, unicamente por temerem ficar “sozinhas” e “encalhadas”?
É perigoso viver à mercê do que a sociedade espera de nós. Quando não prestamos atenção aos apelos do coração e da alma e encaramos os relacionamentos de uma maneira mecânica, como uma obrigação social, passando por cima das nossas necessidades e idiossincrasias, o preço a se pagar é alto demais.
O ser humano é de uma complexidade impressionante. Entender essa realidade é o primeiro passo para se compreender a essência da vida. Não só as pessoas são diferentes entre si como apresentam, ao longo do tempo, múltiplas facetas que vão se alterando à medida que os anos avançam. Ignorar isso ao abraçar um modelo pronto de comportamento ditado pelo meio é quase um suicídio da alma e da autonomia.
A solidão, muitas vezes, é necessária e não são poucas as pessoas que recorrem a ela de tempos em tempos. Existem algumas que chegam ao extremo de viver a maior parte do seu tempo sozinhas. Infelizes e frustradas? Eu não me arriscaria a defini-las assim, tão precipitadamente. Elas podem, simplesmente, ter feito essa escolha.
Sim, a solidão pode ser uma escolha consciente para muita gente que consegue viver, e muito bem, dessa maneira, melhor até do que se estivessem casadas e com muitos filhos. Afinal, cada um sabe qual o melhor caminho para si. Optar por não se casar, por não constituir uma família nos moldes tradicionais não é, obrigatoriamente, uma anomalia. Pode ser o fruto de uma decisão pensada, de anos de reflexão. Eu lhes afirmo com largo conhecimento de causa: muitas vezes, estar sozinho é maravilhoso. Ainda porque creio que só somos capazes de apreciar plenamente a companhia alheia, depois que aprendemos a apreciar a nossa própria companhia e a nos conhecer com mais profundidade.
Seja como for, não podemos permitir que a sociedade influa tão fortemente num terreno íntimo quanto a afetividade e a nossa relação com o mundo exterior.
Casar ou não, namorar ou não, ter filhos ou não deve ser uma decisão nossa e exclusivamente nossa, uma decisão individual e movida unicamente pela nossa vontade e pelo impacto nas nossas vidas. Não importa o que prega a mídia, não importa o que a sociedade supostamente considera certo. Cada um deve eleger o seu caminho e trilhá-lo, ainda que este caminho não leve ao altar, à maternidade ou à vida a dois.
Afinal, ao contrário do que pregava Tom Jobim, é, sim, possível ser feliz sozinho, desde que essa solidão seja voluntária e construtiva. E conduza a uma vida feliz, em conformidade com a maneira de ser e as necessidades de quem optou por ela.

Luis Eduardo MattaRio de Janeiro, 19/9/2006